quarta-feira, 29 de maio de 2013

PUREZA FORÇADA



 RENATA BEIRO e 
OTTON BELLUCCO

As vidas têm muitas vias,
mas são só uma
em cada corpo...
Por que as julgas
o tempo todo?
Por que finges tal denodo
se tu não te importas,
de verdade, com os outros?
Sempre evocas críticas,
cenários burlescos,
mas vazios de ‘eu’
como antigos arabescos.
Tanto fogo
em tua boca,
tanta perfídia
em teu ventre,
mas há sangue
em tua língua,
estranhamente...
O teu coração bombeia
cercado de espinhos,
repleto de areia,
não sangra,
só queima...
Teimas no júri informal
em que te colocas...
Nele sempre serei réu,
a serpente no paraíso,
o engodo carnal,
a anormal, a ‘galinha’,
mas nunca serviçal
de tua inveja ferina,
de tua pureza forçada,
por recalques, marcada...

domingo, 28 de abril de 2013

INSTA...

(RENATA BEIRO)

A urgência
Do verso
Obverso
O revés
Do verso
Reverso
Emergência é!
Ímpeto
Ímpio
Incauta
Sabedoria...
Dos olhos
A trava
Tirada
Humana
Manada
Calca
E dói...
*Entes
Ausentes
De gentes*
Ignorância
Insana
É ânsia!
De graça
O estado
Não é!
De muletas
É o que é!
Ampulhetas
Quero!
Foi o bem
Proscrito
E o vide bula
Prescrito, não!
Lúcidos
Vocábulos
Balançam
Num vai e vem...
Ruídos
Das conchas
São ondas
Verdes
Trespassam
Redes...
Vejo o mar
E nele
A lua
Entrego-me
À embriaguês
Do sal
Em água
Viciada
Doente
Feito freguês...


(arte: INFAMELUDICO/ *alusão a Flavito Sampa)

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Lágrimas...

RENATA BEIRO

Todas essas
Estrelinhas
Que no céu
Estão a brilhar
Não são
Os olhos
Dos anjos
À terra
Querendo mirar...
Todas essas
Estrelinhas
Que no céu
Estão a brilhar
São lágrimas
De bella Luna
Que seu Sol
Amado
Não pode
Olhar...


(Desconheço autoria da imagem/inspiração trazida
de antiga música popular)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Não entendo...

RENATA BEIRO

Não me aposso
Do que não ajuízo...
Não compreendo
O que depreendido não é...
Estranho
Inferir e não deduzir...
Resta-me rir!
Breves instantes
Contida estava
Vi o tosco
Um enrosco...
Vi uma vida
Ó dó!
Imbuída,
Fortuitamente,
Por mentes
Alijadas
Não dizem nada
Mesmice
Oca
Vazia
Cobertos olhos
Em véu
De rudeza e fel...


(Desconheço autoria da imagem)





sábado, 6 de abril de 2013

INSTANTES...

                                       (RENATA BEIRO)

Neste exato instante,
Uma Mulher está sendo espancada
Neste mesmo instante,
Outra, estuprada
Neste momento,
Uma criança, molestada...
Bem agora,
Gente reza a Deus
Outras, a César
Neste exato momento,
Há seres nascendo
Outros, morrendo...
Neste exato momento,
Uma língua glutinosa
Deseja me absorver
Retirar-me
Por simples ganância
Anelo meu,
Esperança...

Arte:  Luis Dourdil

sexta-feira, 29 de março de 2013

MANTO...

                                                      (RENATA BEIRO)

Sacrossanto
Manto
Me cobre
Em espanto
De espanto
Espanto
Tudo
Que santo
Santificado
Seja...
Insana
Talvez
Meu mundo
Por vezes
Mudo
Num vociferar
Silente
Não entende
Nem eu mesma
Compreendo
A santidade
Urgente
No mundo
De tanta gente...


(Escultura by Jorgemiguele©)

terça-feira, 12 de março de 2013

RIO...

RENATA BEIRO

Segue
Sempre
Rio
Curso
Real mente
Sábio
Percorre
Corre...
No mar
Se esvai
Esvazia
Mente...
Inteligente!

(pintura de Claude Monet)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

SECOS OLHOS


RENATA BEIRO

Passam-se umas nas ruas
Outras, comigo...
Quisera poder
Uma lágrima
Verter...
Ressequidos olhos
Não me permitem
Mais sofrer...
Pudera sentir
A dor mais forte
De doer...
Forma ideal
A sofrer...
Sequei
Nem vi...
"Pendentif"
De salgadas gotas
Não me permite
Provar...

MARGARIDA NO ASFALTO


RENATA BEIRO & OTTON BELLUCCO

Em idas e vindas,
vinhas... Vivia ébria
sob a égide do medo,
dos danos, da melancolia...
Eu era flor fustigada
pelo temor da solidão,
pela tua indiferença,
por minha baixa autoestima...
As minhas pétalas
caíam sem proveito...
Minha beleza outonal
desperdiçava-se...,
nada fecundava...
Murchara por dentro
sob tua luz estival...

Vi tuas Marias
Claras, Dianas,
profanas ou não...
Tudo tão exasperante!...
Meus olhos ardiam
pelo pranto eviscerante
do desengano...
Era tormento estar aqui...
Do amor quanta dor!...
Pode ser isso amor?...
Era o medo da solidão
que me tornava presa
de teus enredos...
És terra seca,
agora vejo...

Resolvi gostar de mim;
resolvi não ter medo;
resolvi me achar
nos estilhaços;
refundar a alegria
que joguei fora,
sem perceber...
Sou agora margarida
inflorescente,
não flor melindrosa...
Em cada pétala,
sou flor inteira,
não mais pedaço...
Refaço-me plena outra vez
nas ranhuras de teu asfalto...

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

EGO

RENATA BEIRO

Ego
Cego
Egotismo
Subjetivo
Subjugado
À senhora paixão...
Detendora
Do jugo
Submissão...
Redentora
De quem
Por uma
Qualquer razão
Em regozijo
Exclusivo
E pontual
Lamentando,
De fato,
Ver-se-á
Cercead@
No mundo
Imundo
D@s sem razão...
Rasgado véu
Dubiez
De vez
Resta...
Vanidade
Nata
Necedade
Isenta
Da necessidade
De exagerado
Apreço
Que preço tem...
Subjetivismo
Indolente
Egolatria
Presente...
Pragmática
Neoescolástica
Univocidade
Sem lateralidade...
Percepção genial
Metafísica total!
Ilusório
Universo fenomenal...
Ególatras!
Autolátras!
Excede
Ao ser
Apenas auto-ser...
Preferir
Ou diferir
De quem quer
Depende
Apenas...


(CARAVAGGIO - Narciso/Óleo sobre tela - 122 x 92 - 1599
Galleria Nazionale d'Arte Antica, Roma)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

PROCURA...

RENATA BEIRO

Existência
Travada
É vida
Quebrantada...
Paradoxo
Dialético
De ré
É lamiré...
Prostrada
Restei...
Não chorei
Nem lamentei...
Procurei
Da vida
O motivo...
Estranhas
Superfícies
Percorri...
Busquei
Da existência
O mistério...
O tempo
Passar
Não vi...
Alicercei
Meu ser
Em ti...
Aí, bem aí
É que me perdi...
Perdão, pedi...
Da razão
A voz ouvi...
EMOÇÃO!
Lesta seja!
Encontra
Meu amolgado
Coração...


(desconheço autoria da imagem)

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

CÁ COM MEUS BOTÕES...

RENATA BEIRO

Dia a dia
Sentido
De vida
Construído
É...
Sócrates,
Platão,
Aristóteles,
Descartes...
Filósofos?
Psicólogos?
Sei não...
Virtude
É razão,
A Sócrates
Apolo é missão...
Ora, caro
Platão!
O prazer
Ser sócio
Da dor...
Por favor!!!
Aristotelicamente
Minha mente
SENTE
Emoção
Razão...
Descartei
Descartes
Um erro...
Perdão!
Norteiam
Os tempos
Todos eles
É filosofia!
Coisas
Do dia a dia...
Uma abstração
De vida?
A manifestação
Fiel
Da vida!!!

(desconheço autoria da imagem)

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

PAIXÃO!

RENATA BEIRO

Manifestado
Ardor
De ti
Concupiscente...
Torço (ter)
Teu dorso
Viril...
Cobiço,
Sem razões
A atender,
Tu'alma
E corpo...
Escopo
Ah! Seja real
Nada banal...
Sentir
Rijeza
Em desordenado
Ânimo...
Obverso
Reverso...
Céreo
Não és...
Desígnio
Serás?
Inefável
Desejo
De bem-querer...
Ver-te
Não basta
Insaciável
Fome...
Tangível
É o querer
É o que se quer...



(Pintura de Glória Marino)

domingo, 13 de janeiro de 2013

COMO DIANA...

RENATA BEIRO e OTTON BELLUCCO

Estou nua
à luz da Lua,
mas sou perigo,
como Ninfa...
Minha fragilidade
está armada
com arco, flecha
e boa mira...
A Lua Cheia
é minha amiga,
ascende e acende
minhas vísceras...
Diana infinda
sou de mim:
Maldosa, algoz,
aventureira,
alvissareira,
apraz-me
fazer-te
minha presa,
se me ofendes
ou desrespeitas...

Com minha fáretra
torno féretro
a minha mesa;
com minha mágoa
torno alvo,
dilacero o parvo
à espreita,
com os cães
que o cercam...
Não aceito
que me exponhas
a surpresas vãs
que desconcertam...
De minha aljava
farpas saem de vitupérios
contra Ninfas inimigas,
indignas de companhia,
ínfimas de critérios...
Hirtas de inveja,
não se apiedam
de expor os mistérios
que me tornam Deusa...


Arte: Giuseppe Cesari, 1606

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

À DISTÂNCIA DE PALAVRAS...

RENATA BEIRO e OTTON BELLUCCO

Queria-te sem lábias,
sem juras casuais
tiradas de livros...
Queria-te em pele,
em cama celebrada
como pátria única...
Quero que saibas
que estou fatigada!...
Farta dos teus versos,
dos teus dolos,
da clerical túnica
como consolo!...
Tu me injurias
com tuas mentiras,
com tuas promessas
não cumpridas;
se me negas teus lábios;
se apenas me ofertas
jogos de palavras
sem corpo, sem alma...
Então, o que me legas?...
O assombro da inexistência;
a distância que me refrigera;
a inclemente ânsia
que me dilacera
ao perceber
tua verve desalmada,
saturnal, destituída
de amor sincero...
Se amo, é amor e basta!...
O que há num verso?
Não tem braço, pernas,
nem parte alguma
de uma pessoa...
Sê mais que palavras!
Tenha alguma alma
que eu possa ferir
com vitupérios!...
Ai, oco de sentimentos!
És desperdício de pele,
ar, espaço e tempo!...
A ti não mais me consagro
ou apelo por aconchego.
O amor não é expresso
ou suportável
por frases tolas
que aventam lábios
que desconhecem
a perfeição contida
no céu da boca...

Arte: Otton Bellucco

SEM NEGOCIAÇÃO...

RENATA BEIRO e OTTON BELLUCCO

Arde a saudade,
invade-me com seu sal,
afoga em mar
turbulento
o meu olhar...
Ai, rosário!...
Pareço um fado!...
Falta-me um vago
contentamento.
Aquiesço cada vez menos...
E vem...,
vem novamente
o rosário de lágrimas
a rolar, a brotar
de tempos em tempos!...

A vida aponta vias.
Novo horizonte
se anuncia,
a despeito de ti...
Não preciso,
não me inclino
a vãs utopias...
Quero o sonho
sem perfeição,
sem sofrimento,
com pés no chão...
Mas só serei feliz
se for sem raiz,
expatriada de ti,
que em nada condiz.

Claustra de mim sou
neste momento...
Sei de meus defeitos,
mas sempre eu
devo ceder?...
Arde a saudade,
mas não sou bolero...
Se te quero, quero
com dignidade!...
Viver inteira,
não pela metade!...
Suporto a saudade,
mas não o espelho,
se te cedo
mais uma vez...

Mesmo com sede,
recomponho-me
a cada dia...
São dignos dias,
mas descontentes
pela história indigna
do que suportei,
por desejar, ainda,
que fosse de outro jeito...
Sem ataraxia,
vivo o declínio
de mim mesma,
mas não desisto
de tentar o amor,
sem ti, outra vez...

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

POESIA...RESPEITO!

RENATA BEIRO

Mãos
Despertas
Estetas
Expectas...
Incumbência
DeVida
Ao mister
Emotivo...
'Inda que
Peja
Inação...
Seja cume
Ou base,
Aspecto
Polifásico,
Correntes
Percorrem
Em mim...
Criação!
Ó invento
Sem tempo!
DesOcupado
Adro
Templo meu...
A preceito
Poetizar
Tenho feito...
Defeito
Imperfeito
Desfeito
Refeito...
À POESIA
Me rendo
É amor
É RESPEITO!!!

DOAÇÃO POÉTICA...

RENATA BEIRO e OTTON BELLUCCO


Brinco com afinco...
Brinco sem domínio
e trinco a redoma
que nos força
ao suplício
do cotidiano
ao serviço do hábito
que tudo torna
normal,
até serviçal
a consciência
do malquerer;
esquecida
de um simples
‘bem-me-quer’,
do ‘bom dia’,
da gentileza
de ceder a vez...
Assim me fez,
por tanto querer,
ser da poesia
patrão e freguês...
Quis sua quietude,
sua morada...
Nela me embalo,
abalo, desabo
se feliz, se consternada...
Facúndia de mim,
fecunda em mim
doses largas
de palavras
que dão sentido
às angústias
passageiras,
profundas,
profusas,
ligeiras...
Larvas d’ideias
frágeis, impuras,
nascem sem asas,
sem pernas, sem teto,
desnudas...

Mesmo assim,
o mistério do tempo
nos prega peças:
Ideias cavam, cravam,
crescem, exortam, liberam,
expulsam do coração
o sofrimento;
exorcizam, enxotam,
debocham do desdém
das críticas invejosas!...
A poesia ri p’ra mim,
enquanto rio delas;
e me transcende
e me ascende
às alturas
claras e escuras
do contentamento...
Não sou mais refém
do iníquo ditame
das parcas e porcas
verves dos vermes
que me invejam...
Sigo em frente,
mas, entrementes,
a vergonha me invade
de ser da mesma espécie
que desperdiça a vida
ao expelir, entredentes,
a sua peçonha covarde...
Vê, em mim arde
um Sol entre nuvens
nunca carente de Musa.
Minha pena oferta beleza
etérea, terrena... Exulta
ao revés da Lua
que forma minhas marés
e tormentas...
Mesmo se pena
em dores ocultas
e parto difícil,
a poesia se doa
e oferece um abrigo...


Fotografia: Ivam Guarani-Kaiowá Martins

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

ADMIRAÇÃO...

RENATA BEIRO

Leio
Releio
Versos
Teus...
Fortes
Tocantes
Fincantes...
Versejar
Verdadeiro
Sinto
Até mesmo
Cheiro
De flor
Dor...
Gana
Guerra
De coração
E razão...
Vence
Emoção!
Egoísta
Que sou...
Um elogio
A ti
Infla-me
Pura
Admiração
Ego meu...
Quisera
Fossem
As minhas
Tuas mãos...

CORAÇÃO SE POETIZA

RENATA BEIRO e OTTON BELLUCCO


Aflito, pulsa o coração...
Negociação: Sim e Não
animam seu ritmo.
Espera conflitos
e quer o abrigo
da Musa
contra a Morte
da inspiração...
Pelejam entre si
Musa e Morte...
Querem o coração
que poetiza
no templo
da inspiração,
contemplativo e ativo
no mundo que refunda,
reflui e conflui
os seus desertos
a todo tempo...

Esperemos frutos,
não dejetos,
dos segredos ocultos,
profundos, profusos,
diáfanos, difusos,
anunciados
na consciência,
pulsados
no coração,
desviados,
até então,
das Palavras,
entorpecidas,
confusas, aturdidas
por censuras,
indulgências,
negligências,
tristeza, agruras,
incompreensão...

Talvez pelo parto
ainda enfermo
da inspiração,
a poetisa é abatida,
vez ou outra,
por melancolia...
Implora, então,
pelo diapasão,
por versos,
que não vibram,
a contento,
seu coração...
Soturna, taciturna,
inconsequente,
pactua com a Morte,
abandona a Musa,
que se descuidou,
por um momento,
da vigília poética
dos sentimentos.

Da inspiração
a Morte se avizinha;
torna infeliz a poetisa
cheia de sentimentos
que lhe oprimem;
enquanto a Musa,
negligente da vigília,
deixa sua emoção
queimar, sem forma,
na inconsequência
de seus ímpetos,
na animosidade
consigo mesma,
na animalidade
vazia de Palavras
que contentem,
comentem,
aliviem,
conectem
mente e coração.

Enquanto dorme
a Musa, a Morte
conduz, domina,
amofina e destrói
o ser que poetiza
no fogo da paixão
sem forma,
sem direção,
ao sabor do vento...
Cinzas emergem
da destruição
da verve criativa;
rejeitos do ímpeto
ignorante de Palavras
que condensem cura,
exorcismo p’ra alma,
equilíbrio p’ro excedente,
sentido..., p’ra haver alívio...

Então, acorda, Musa!...
Amola teu cinzel,
afina tua cítara
ajuda a poetisa
contra o Ceifeiro.
Defina a forma
dos sentimentos,
este mar aberto
sempre necessitado
do continente do Verbo.
Que mente e coração
se conectem
novamente,
sofregamente,
no verso nascituro,
saudando a sorte
do novo Verbo,
vencendo a morte
com seu augúrio...

Coração de poetisa
é arte que oscila,
inclina, declina;
é diurno e noturno;
é luz e penumbra;
é pleno e murcha;
machuca a si mesmo
no limite do mundo,
na secura dos desertos,
mas se cura no verso,
num movimento
infindo de Sim e Não,
que só finda e sofisma
com a Morte,
não com a Palavra,
se a Musa não se recusa
em ser, na medida certa,
terrena e etérea,
ímpeto e forma,
abrigo e pulso,
choro e riso,
aurora e crepúsculo...